sábado, maio 09, 2009

Peças do destino

Ele era sossegado, meio na dele, quase tímido. Do tipo que precisa de dois copos de cerveja no bar, para se soltar um pouco mais com os amigos e poder comentar da garçonete gostosa sem pintar o rosto de vermelho. Namorou com poucas, sempre por muito tempo. Tomou um pé na bunda da última vez e andava meio esquisito, mais inseguro, quase sem olhar para as mulheres.
Ela era uma maluca. Hiperativa, pouco discreta, muito animada e sempre rodeada de gente. Não precisava de nada para animar qualquer lugar onde fosse, mas se bebia um pouquinho virava a atração não só da mesa de amigos, como do bar todo. Fazia amigos onde fosse, mesmo no pedágio pra descer a serra. Tinha o dom de transformar as situações. Chamava atenção dos homens, mas muitos tinham medo de se aproximar e até mesmo de serem ofuscados por tanto brilho. Parecia uma devoradora, mas no fundo, estava sempre sozinha. As aparências enganam, quase sempre enganam.
Um dia, os caminhos de ambos se encontraram, no lugar mais improvável do mundo, na situação mais inusitada. As probabilidades de - em um dia normal - ele olhar para ela e ela para ele eram nulas. Por isso que eu digo que aquele não era um dia normal. Naquele dia, ela se sentia especialmente só, enquanto ele, especialmente vazio. Coincidentemente, cada um deles decidiu que sairia sozinho, sem a proteção dos amigos, sem as risadas mascaradas e sem a rede de segurança. Não foram longe. Acabaram na padaria badalada da cidade, que ela sempre frequentava, mas que ele não gostava.
Cada um sentou em uma mesa. Ele pediu um café com leite e um pão com manteiga. Ela, um nescau batido com um misto quente. Estavam, cada um, tão alheios ao mundo e concentrados em suas próprias dores, que não olharam em volta. E mais uma vez, não se viram.
Até que Nalvinha, a garçonete, levou o café com leite na mesa dela. E o nescau na mesa dele. Com a confusão, foram obrigados a sair de suas bolhas. Ele não iria dizer nada, ia apenas aceitar que o destino quis que ele tomasse nescau ao invés de café, poderia ser bom para seu estômago, afinal. Mas ela odiava café e não estava acostumada a deixar as coisas passarem. Reclamou, com jeitinho, claro. Um jeitinho que fez ele levantar os olhos para a mesa ao lado.
Quando os olhares se cruzaram, entenderam a confusão. Ela, mais rápido que ele.
Pegou a bolsa, o prato com o misto e o café e - sem dizer nada - sentou à mesa dele, no lugar vago que ele tinha a frente.
Em cinco minutos ele descobriu que ela era Eduarda (ele Eduardo), nascida um dia antes dele, formada em duas faculdades, apaixonada por pizza portuguesa e filha de pais separados. Algo se mexeu dentro dele, mas ele não entendeu. Começou a falar também, menos que ela, mas falou como não falava desde o colégio.
Seis cafés, quatro copos de nescau, um pão com manteiga, um misto quente, três pães de queijo, dois pedaços de pizza, duas cocas e quase seis horas depois, perceberam uma Nalvinha sem graça, querendo fechar a padaria. Todas as cadeiras já estavam em cima das mesas, as luzes de metade do estabelecimento apagadas e uma fila de funcionários já sem o uniforme encostados no balcão, apenas esperando os dois.
Foram para casa, cada um em seu carro. Quando entrava na garagem, ele percebeu que sequer pegara o telefone dela. Sentiu um vazio inexplicável e quis voltar para a cidade, procurá-la pelas ruas. Seu bom senso o segurou e ele começou a se conformar, nunca mais a veria. O elevador parou no térreo e, quando a porta se abriu, sentiu como se estivesse em queda livre: era ela.
Mais que isso, era o destino.

10 palpites bem-vindos!:

KeLLy ViAnA disse...

ai que legal..deu foi um negocio no coração quando tu falou que ele não tinha pego o telefone dela,mas no fiim tudo acabou bem!

bjOo!

Gaby disse...

Muito lindOO.
A cada, pedaço q você vai lendo, vai dando aquela sensação de espectativa de que tudo ira da certo.

Beijos

bárbara disse...

[b]Ola moçinha...meu nome é Bárbara...tenho guardado um artigo seu com o tema"Beleza x Inteligência...achei muito prático oq vc disse sobre o assunto tô passando prá dizer oi por aki, e e perguntar se vc tem orkut?
...um cheru!

Helena Mayrink disse...

Hey D,
adorei o texto! Eu sou leitora assídua aqui e sempre gosto do que você escreve, mesmo quando você escreve meio de bobeira.
Mas desse texto eu gostei em especial! O tipo de coisa que eu leio rápido, porque é interessante o suficiente para prender bem a minah atenção.
Parabéns pelo talento. Obrigado por agradar os meus olhos e colocar cultura no meu cérebro. :)

Helena.

'D.S. disse...

Muito lindo o texto!!
Quando fui lendo deu uma angustia em pensar q eles não iam se encontrar... xD
Ainda bem q acabou tudo bem! =DD
Adorei o seu blog!!
Beeijos!
;**

Ps: Te linkei táa?!

Heloisa Moraes disse...

linda história, tá de parabéns.
adoro essas coisas de coincidências.

=)

Marcos Satoru Kawanami disse...

se deu bem na ficção, joia!

mas será que na vida real eles iriam ficar as 6 horas só na padaria? meu, 6 horas dá pra ir do Rio a São Paulo.

=D
marcos

Lara. disse...

adoro finais felizes. é.
(gostei do seu jeito de escrever, dica)

Dani disse...

Adorei! Uma ótima história pra ser lida as uma e poco da manhã enquanto o sono não chega. É uma inspiração e tanto para bons sonhos! ;)

Becka disse...

NOSSA DI !
Pirei com o texto, de verdade.. ficou MUITO bem escrito, a idéia toda, o jeito, tudo *-* amei mesmo !

:* saudades GORDA