sexta-feira, janeiro 05, 2007

Apenas Comum


Ela não era uma menina linda. Ela tinha o cabelo desengonçado, não tinha os olhos verdes nem azuis. Ela fazia de tudo para ser aceita.
Desde pequena, aprendeu que sofrer bem, é sofrer quieta. Quando gostava dos meninos, eles sempre gostavam das suas amigas. Quando podia, ela ajudava o tal 'romance' . Só para conseguir ser importante.. No dia dos namorados, ela nunca ganhava presente, nem que fosse um recadinho de quatro palavras num papel de cheese-burguer amassado. Fazia de tudo e mais um pouco para que gostassem dela.
Levava brinquedos extras de casa, nas sextas-feiras, quando era permitido levar, para caso alguém resolvesse brincar com ela. Quase sempre acabava brincando sozinha, embaixo da arquibancada, conversando sozinha com as bonecas que conseguira esconder da mãe e da avó na mochila pesada, que só conseguia carregar por que pensava que talvez o dia fosse aquela sexta- feira. Ás vezes, alguém se interessava por seus brinquedos. Como aconteceu quando levou aquele cachorrinho que dava saltos mortais para trás. Por dois minutos, toda atenção era só para ela. Não bem para ela, mas para o brinquedo. Mas não importava, ela era a proprietária do cachorro saltitante. Mas tudo isso só importava por dois minutos, depois, alguém surgia com uma boneca tamanho- criança.

Ela não tinha os melhores brinquedos, roupas... sandálinhas, daquelas de plástico de alguma famosa da TV, nunca teve. Tênis que acendia a luzinha quando pisava? Idem. Desde pequena foi assim. Talvez por isso nunca foi uma das primeiras a ser escolhida na educação física.

Por que era assim? - vivia a se perguntar. Talvez não prestasse mesmo. Nem o pai gostava dela...
Ao crescer um pouco mais, houve uma época em que pensava todos os dias, carinhosamente, em se matar. Como seria se ela morresse? Como ficaria o mundo sem ela? Alguém sentiria sua falta? Alguém lembraria de sua morenice?
Descobriu então, um jeito de desabafar: escrevia tudo em cadernos. Cadernos e mais cadernos. Chorava suas mágoas deitada sobre seus cadernos todas as tardes e todas as noites, até que adormecesse. Não à toa, tinha tara por papelarias. Entrava em todas, queria todos os caderninhos, agendinhas.. o que fosse. Esses eram seus amigos. Tinha pilhas deles no quarto. Sabia que ninguém ousaria ler. Mas como desejava que lessem e descobrissem que ela era uma farsa. E a ajudassem... como desejava...

Aos 14 anos, tinha escrito dois livros. Histórias que fantasiava como sendo suas. Livros que ninguém jamais leu. Mas orgulhava-se da escrita precoce. Nas histórias, a personagem principal sempre era uma garota, mais ou menos de sua idade. Ela sofria, mas sempre descobria a felicidade. Tinha amigos, amores.. uma família desestruturada... Mas no final...Era o seu final. Tudo o que desejava para si.

A fase depressiva não foi eterna, achou uma força dentro de si que desconhecia. Provavelmente herança materna. Sua vida não virou um de seus contos de fadas, mas se revirou. Ela continuava a não ser a mais bela, e os rapazes sempre gostavam se suas amigas... Mas ela tinha um brilho nos olhos.

Aquela... MORREU!

3 palpites bem-vindos!:

Itamar Oliveira disse...

E a Fênix surge de suas próprias cinzas.

Guilherme disse...

Genial...

Biaaahhh disse...

Essa menina era vc???